9 de mayo de 2008

Um capítulo

Dia desses (faz algum tempo), inspirada na Clarice (que audácia!), pus-me a rabiscar devaneios... Eis:

Sinto-me livre. E com uma apreensão estranha. De não querer que essas palavras se percam. Que não se percam de mim, embora eu nunca as tenha tido. Fazia algum tempo eu não me dedicava às palavras. Solitárias amigas de tempos passados. Companheiras de um tempo febril, descompassado, de não pertencimento ao espaço ao meu redor. Parece-me agora que a resposta está diante de mim. Que juntamente com meu baú, foram-se minhas palavras, minhas idéias abstratas e sem sentido. Recebi de presente o silêncio. É nele que sinto que sou um emaranhado de subjetividades desordenadas que têm dificuldade de se resgatarem quando são solicitadas. Nesse exato momento, apenas sou. Sou porque percebo que essa estranha vontade de colocar minhas verdades no mundo não é só minha. Aí, sinto-me livre. Talvez quisesse desbravar mais vezes o desconhecido, conhecer a fundo o incerto e chegar a extremos como aqueles de quem se lê biografias. Será que hei de me contentar com apenas ser e morrer? De jamais ter existido? De ser, como tantos, esquecida pelo porvir? Sei que vivo meus dias a esperar pela hora-momento, pelo instante-já, que é o agora. A sensação de útero já não existe, mas perdura o sentimento do quase, do ainda não. E o que fazer? Viver meus dias e minhas noites como quem tem algo a esperar? Como alguém que se projeta num tempo vindouro, que só depende de mim? Minhas responsabilidades pesam. Não que sejam muitas. Afinal, tenho a mãos macias, as unhas limpas. Não conheço o sofrimento da morte, da miséria, do terror. Estremeço diante dos fatos, mas quase não pertenço ao mundo que tanto quero que mude. Sou apenas um produto de sua exceção e assim me vejo, com pesar. Porém com ainda maior responsabilidade. Acumulo pesos de diferentes fontes, estou no ápice e no começo da vida. Assim como posso estar no final. Tudo é incerto. Somos algo entre aquilo que projetamos ser e aquilo que fomos. E como não sei bem definir nenhum desses domínios, fico no constante ser-não-ser, comum das questões humanas. Fala-se do tempo, das liberdades, das forças alienantes. Fala-se da vida e da morte, do instante no entrementes. Sinto-me livre, porém limitada. Sou e não sou. Ensaio preocupações mundanas, mas no fim do dia, fico é com minha mente, com meu pensamento. Longínquo e presente. Teias que se tecem e se desfazem. Sou um algo a se descobrir. Sou parte desse todo indescritível que não se sabe porque está aí.

1 comentarios:

Blogger Mordida ha dicho...

Mui bom, a melhor.

3:49 p. m.  

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