21 de junio de 2008

Infância

Aproxima-se
Sente na ponta dos dedos essa sensação leve
Acolhe essa realidade contida
Essa veleidade cheia de reveses...
Ela que pensou ter asas
e voar em folhas de seda
Sente o fraco calor na pele
cheiros familiares
manhãs dominicais
em que o último dos sentimentos
é a preocupação
Quando o presente se faz mais presente
E sua presença sutil
não avisa que chegou
e vai embora sem se despedir
prende-se a lembranças
que a façam sorrir
Já o futuro não tem importância
e a sua vida lhe mostra se não
ou se sim
Tempos em que o jardim era o mundo
e teus amigos eram muitos
a resumirem-se em apenas ti
Quando as tardes eram longas
e nas noites,
ao sonhar novamente com asas
percebia seu destino
bem distante dali.

11 de junio de 2008

o bicho

Tinha seis pernas e antenas longas...
Eu jamais tinha visto um daqueles
E ele era, de fato, asqueroso.
De dentro da pia com água,
ele sofria.
Não consegui deixar de humanizá-lo,
Porque o esforço que ele fazia para sobreviver
era humano.
Retorcia-se, virava-se...
Colocava as antenas para trás,
talvez no intuito de angariar mais forças...
Em vão.
Senti pena.
A vida lhe parecia tão cara...
Até que, enfim,
alguém teve coragem de acabar com o sofrimento do bicho.
Eu lamentei a sua morte...
E assim comecei o meu dia.

27 de mayo de 2008

Les événements m'ennuient

A menina debruça-se mais um vez sobre o peitoril da janela
Sente-se como naquela frase que leu pela manhã:
“os acontecimentos me entediam”...
No prédio ao lado, aquela mesma idosa sentada, diária e pontualmente, em seu sofá a lembra da perversidade do tempo
Na rua, como era de se esperar, a velha comoção das almas em chegar a algum lugar...
E a menina assiste àquilo, com inédita apatia
Seu pensamento, há tempos, desprendeu-se dali
E novamente ela voa, como naquelas memórias sobre as quais uma vez escreveu.
A diferença é que, dessa vez, já não é mais tão menina
E é nessa hora que ela se sente compelida a uma reflexão existencialista...
Pensa na inutilidade de suas constatações
E na dificuldade que sente em adequar-se ao que lhe é necessário
Hoje não é um daqueles dias felizes
Em que ela sorria por algum acontecimento ditoso,
Ou por alguma palavra que provoca o riso,
Suspirada no ouvido de alguém
Não é um daqueles dias
Em que ela se orgulha de apenas ser quem ela é,
Sem preconceitos contra si mesma.
Nesse preciso momento,
O cigarro acaba.
Ela o apaga com indiferença.
E entra...
Para, supostamente,
Fazer o que tem que fazer.
Hoje, realmente, não é um dia feliz.

17 de mayo de 2008

Teu aprendiz

Às vezes, poemas saem no sopro. Às vezes, demoram. Nem sempre começam do princípio, nem sempre acabam, nem sempre acontecem. Como eu já disse nesse mesmo blog: Às vezes rimo, outras reclamo. Hoje, eu rimo e reclamo.
Então... dá-lhe o eu lírico.

Se tuas sensações não te perturbam
E se no livre sentir fazes tua morada
Faze de mim um aprendiz,
Que, nessa matéria, sou quase nada

Se colhes tuas flores
E as vê repousar na primavera
Se pintas com teus pincéis sem medo
De os ver borrar a tela

Tem em mim um discípulo,
Que, no sofrer, pinta e chora
No amor, ama e corre
Na vida, às vezes vive
E, quase sempre, morre.

9 de mayo de 2008

Um capítulo

Dia desses (faz algum tempo), inspirada na Clarice (que audácia!), pus-me a rabiscar devaneios... Eis:

Sinto-me livre. E com uma apreensão estranha. De não querer que essas palavras se percam. Que não se percam de mim, embora eu nunca as tenha tido. Fazia algum tempo eu não me dedicava às palavras. Solitárias amigas de tempos passados. Companheiras de um tempo febril, descompassado, de não pertencimento ao espaço ao meu redor. Parece-me agora que a resposta está diante de mim. Que juntamente com meu baú, foram-se minhas palavras, minhas idéias abstratas e sem sentido. Recebi de presente o silêncio. É nele que sinto que sou um emaranhado de subjetividades desordenadas que têm dificuldade de se resgatarem quando são solicitadas. Nesse exato momento, apenas sou. Sou porque percebo que essa estranha vontade de colocar minhas verdades no mundo não é só minha. Aí, sinto-me livre. Talvez quisesse desbravar mais vezes o desconhecido, conhecer a fundo o incerto e chegar a extremos como aqueles de quem se lê biografias. Será que hei de me contentar com apenas ser e morrer? De jamais ter existido? De ser, como tantos, esquecida pelo porvir? Sei que vivo meus dias a esperar pela hora-momento, pelo instante-já, que é o agora. A sensação de útero já não existe, mas perdura o sentimento do quase, do ainda não. E o que fazer? Viver meus dias e minhas noites como quem tem algo a esperar? Como alguém que se projeta num tempo vindouro, que só depende de mim? Minhas responsabilidades pesam. Não que sejam muitas. Afinal, tenho a mãos macias, as unhas limpas. Não conheço o sofrimento da morte, da miséria, do terror. Estremeço diante dos fatos, mas quase não pertenço ao mundo que tanto quero que mude. Sou apenas um produto de sua exceção e assim me vejo, com pesar. Porém com ainda maior responsabilidade. Acumulo pesos de diferentes fontes, estou no ápice e no começo da vida. Assim como posso estar no final. Tudo é incerto. Somos algo entre aquilo que projetamos ser e aquilo que fomos. E como não sei bem definir nenhum desses domínios, fico no constante ser-não-ser, comum das questões humanas. Fala-se do tempo, das liberdades, das forças alienantes. Fala-se da vida e da morte, do instante no entrementes. Sinto-me livre, porém limitada. Sou e não sou. Ensaio preocupações mundanas, mas no fim do dia, fico é com minha mente, com meu pensamento. Longínquo e presente. Teias que se tecem e se desfazem. Sou um algo a se descobrir. Sou parte desse todo indescritível que não se sabe porque está aí.

4 de mayo de 2008

Pedra

Quero chegar ao concreto,
ao duro, ao palpável.
Quero poder tocar com os dedos
nessa vontade fria
que não existe,
senão no ar.
Quero tornar as coisas simples
e fazer pedras
das bolhas de sabão.
Quero narrar os feitos da menina abstrata
que, esqueceu,
tem coração.

28 de abril de 2008

O imo

Criatura inanimada:
É indolente o teu estado,
Imatura a tua alma
E inócuo o teu desejo.
Porém, intuitivo é o teu pesar
Que, intimamente,
transparece indecente,
indócil, intransigente.
Sofre, criatura
Que teu sofrer
é involuntário
e teu indulto,
implícito.