Você pode ir à janela e olhar os pombos. Pode até escutá-los, se prestar atenção. Você pode, então, sentir saudades de tempos que não voltam mais. De pessoas que já estiveram presentes na sua vida e que hoje estão em outro lugar. Longe. Em algum momento você sentirá que algo está faltando, que você, talvez, não esteja no lugar certo. (Há lugares certos?) Que as coisas não estão acontecendo da forma como você gostaria que elas acontecessem. (E deveriam?) Que, das tantas coisas que você poderia fazer, você escolheu isso. (Será?) E aqui você está, nesse momento. Você pode até repensar, e ver que, de fato, você escolheu. E agora? Em seguida, quase imediatamente, você se pergunta: quem disse que as coisas são definitivas? E, ao mesmo tempo, quem disse que você se arrepende? Não seria somente um mal momento? Um sábado vazio? Esses momentos - você pode ponderar - todos temos. E você pode pensar, ainda, que a vida não é só isso, que você não precisa disso. Que a culpa, meu deus, é algo que se sente, mas que não deveria te deixar assim. E pra que a culpa? Pra que tanta culpa? Porque não sair e sentir o vento na cara? Ou porque não largar tudo e ir embora? Talvez porque, no fundo, você sabe que está fazendo o que quer fazer. Ou, pelo menos, deve estar no caminho. Não sei, e nem sei se consigo chegar a uma conclusão. Sei que hoje é sábado. Que não está muito frio. E que os pombos estão ali fora. Com fome, suponho.